Política e Forró

Nunca gostei muito de misturar essas duas coisas; isso não faz de mim um alienado e muito menos um desinteressado. De qualquer forma, fazer Forró já é um ato politico.

É um ato politico porque, de algum modo, ao trabalhar um ritmo genuinamente brasileiro, embora cheio de influências – e isso não é contraditório, já que no mundo tudo se transforma de acordo com os costumes e região e o passar do tempo –, fazemos aqui um local de propagação do Brasil através da sua música. Nada contra o fato de os ritmos e artistas estrangeiros virem pra cá; pelo contrário, acho ótimo, mas transformar o nosso ritmo em produto de exportação e valorizá-lo ao máximo é, em alguma medida, fazer valer as nossas raízes, costumes e modo de ser.

Quando um ou outro candidato se apropria do Forró em jingles políticos, e isso aconteceu em quase 80% dos casos nesta última eleição , segundo uma pesquisa de um importante jornal de São Paulo, é porque sabe-se que o ritmo toca fundo em alguma memória afetiva e nos traz um sentimento de pertencimento como brasileiro, mesmo que andemos apenas com camisetas com dizeres gringos, mesmo que no dia a dia só valorizemos os ritmos estrangeiros, mesmo que falemos mal o tempo todo das coisas brasileiras.

Não coloco aqui o ritmo como de esquerda ou direita, mas seus personagens várias vezes se manifestaram e foram claros nas suas posições.

Gonzaga, nosso patriarca, era um típico eleitor de resultados, algo como "faça por mim e eu gosto de você”. Foi assim quando o então vice presidente Aureliano Chaves acabou com a guerra em Exu entre as duas famílias que insistiam em matar um membro da outra, sempre em nome da vingança. Eu nunca soube quem começou a briga toda e jamais entenderei alguém matar seja qual for o motivo.

Mas, seja como for, o Vice Presidente deu fim à guerra e Gonzaga passou a ser um entusiasmado defensor dele.

No nosso meio, sobretudo no Canto da Ema, evitamos nos posicionar sobre partidos e candidatos. Aqui, nossa politica é a politica do Brasil, sem nenhum interesse em parecer nacionalista no sentido politico/fascista da palavra. Apoiamos abertamente um ritmo brasileiro e o defendemos com unhas e dentes, embora os tradicionalistas discordem dessa defesa, já que adoramos as tendências em fusões deliciosas como o Peixelétrico faz com o reggae, o O Bando de Maria fazia com o rock, o Bicho de Pé faz com a MPB e, vez por outra, Zaira e Dois Dobrado, brincam com a música caipira.

Tudo isso é bem bacana, mas a nossa atuação mais politica vem mesmo da nossa mania de querer acolher o mundo, de ser diverso, de gostar dessa diversidade. Temos essa tendência de ser retrato do Brasil, este país miscigenado, cheio das influências externas e misturas internas que um país continental como o nosso propicia.

Somos, como já disse várias vezes neste espaço, brancos, negros, índios, orientais – e como tem orientais!; somos ricos, pobres e classe média. Às vezes, a gente chega de terno, de blazer, moletom, bermuda, camiseta, regata, camisa xadrez dentro da calça, fora da calça, chegamos cheios de mensagens em inglês, chegamos de dread no cabelo, de gel, chegamos de chinelo, tênis, sapato, bota; às vezes tiramos tudo pra sentir o chão e às vezes nos tiram o chão, principalmente elas, quando vêm de brilhos e lantejoulas em lindos vestidos cumpridos, mas que podem, às vezes, ser curtos, à vezes curtíssimos, o que as levam a precisar de shorts por baixo, mas tem quem esqueça desse detalhe. Lá vem elas de vestidinho, vestidão, bermuda, shorts, camiseta, de alcinha ou normal. Tem gente que vem do trabalho e “peixe-fora-d'água" chega de terninho, mas chega...

Vem gente de tudo que é jeito até porque as origens são diferentes e aqui recebemos muitos estrangeiros. É bem verdade que também a migração em nosso país é gigante e o Brasil quer e precisa conhecer o Brasil. Faz parte da nossa missão mostrar o Brasil pra estrangeiros e pra brasileiros.

Recebemos gente de todas as religiões e elas se misturam por aqui, pois o nosso Deus é feminino e atende pelo nome de sanfona e viva a sanfona! Que as vezes é rabeca, pífano, violão, mas, liberal que é, tem dois amantes, um indefinido, provavelmente trans, ja que nunca sabemos se é o Zabumba ou a zabumba, mas tem também o triângulo que divide as atenções em importância e implicância, uma vez que aquela batida de ferro não passa desapercebida nunca; contudo, quando pára, no forró, faz uma falta....

Aqui, até argentina canta forró, tem violinista francês que é apaixonado por forró, sanfoneiro inglês que chega cheio de suingue pra tocar forró. Aqui, espanhola se derrete cantando forró e ja apareceu até trio de Forró Japonês e por ai vai, pois quem conhece se apaixona, independente das diferenças que carrega. Qualquer que sejam as diferenças, se uma pessoa tem ao menos um coração e um cérebro, isso basta para poder amar o ritmo.

Enfatizo isso por que vem gente dançar com todo o tipo de necessidades especiais. O Forró é terapia pra tudo e adoramos receber gente de todo jeito; aqui todos dançam, até em cadeira de roda, até surdo-mudo, cego e não estamos nem ai para nada, desde que venha se divertir.

Mais uma vez, alienados? Sem posição? Não! Apenas respeitamos todas, assim como respeitamos as opções futebolísticas, mas que, em nome da segurança e da tranquilidade, e para que o Forró permaneça sempre em paz, estabelecemos nossa principal e mais dura proibição que é o impedimento de algo de vestuário que tenha símbolo de algum time paulistano.

Fora isso, queremos tudo e todos. Podem vir, cheguem, acomodem-se e divirtam-se, e que me desculpe Tim Maia, aqui vale dançar homem com homem e mulher com mulher, mas o resto vale demais também!

Paulinho Rosa (Novembro/2018)

Tags: Novembro, 2018

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