Forró – patrimônio imaterial. Bom ou ruim?

Algumas pessoas super bem intencionadas e apaixonadas pelo Forró agitam um grande movimento em favor de transformar o Forró em patrimônio Imaterial cultural do Brasil.

É, sem dúvida, um movimento legitimo e a favor de um dos mais importantes itens da cultura brasileira. Costumo dizer aqui, neste espaço, que o Forró, junto com o samba, são ritmos de identidade nacional, aqueles em que o brasileiro se reconhece. Até mesmo aquele que não gosta de nenhum deles e só se rende aos ritmos estrangeiros, independente da qualidade, identifica-se quando está fora do Brasil e, seja lá onde for, o soar de um triângulo ou uma sanfona o faz relembrar do solo brasileiro.

A atitude entusiástica do grupo que coordena o projeto e o processo do reconhecimento, embora cheio de argumentos, ainda não me convence que o sucesso da empreitada seja efetivamente bom para o ritmo, salvo se algumas outras ações acessórias forem feitas conjuntamente.

O meu grande dilema e a dúvida que me causa um certo temor é que todos os itens transformados em Patrimônio Imaterial caiam na vala do Folclore, denominação perigosíssima e vista pejorativamente como algo menor, sazonal ou perimetrado para locais específicos, sem possibilidade de ser difundido em toda e qualquer parte .

Se eu estiver certo e isso acontecer é bom perceber que raramente algo disposto como “Folclórico” consegue sair desse âmbito, que é um lugar, normalmente, muito restrito e, nesse caso, perderemos o que sempre lutei como apaixonado pelo Forró que é o de estar em um espaço comum entre os diversos ritmos; em caso de aprovação, teremos um local privilegiado em termos de proteção, mas restrito e separado do mundo.

Um exemplo: sempre achei que as rádios ditas de música brasileira deveriam ter o Forró como um dos ritmos importantes da grade, mas parece que, salvo para quem é amante do ritmo, todos os outros o veem como algo separado, distinto. Se tornado “folclórico”, essa distinção tende a aumentar, a cerca vai crescer e teremos muito a perder.

Aqui, no Canto da Ema, nunca propus uma decoração caricata nordestina ou uma utilização de adereços desse tipo. Coisas como chapéu de couro ou de cangaceiro nunca incentivamos muito, aqui, sobretudo quando exposto de maneira falsa, pois também trazem essa viés folclórico. É claro que quando um músico usa esse adereço, que lhe pertence de raíz, é muito bem vindo.

Qualquer coisa que necessite de uma proteção é que não tem força para caminhar sozinha.

Lembro da malfadada tentativa de diversas leis de proibir ritmos alheios aos tradicionais do carnaval pernambucano tentando, dessa forma, preservá-lo, quando o movimento correto, assim me parece, seria muito mais o de municiar, fomentar, difundir e divulgar o frevo, o maracatu e o caboclinho, para que assim ganhem força para nadar com os próprios pés, do que o proibir outros que, reconhecidamente, produzem mais e, às vezes, com mais profissionalismo, de ganhar espaço.

Mais uma vez, minha posição é de que lá, naquele caso, teriam que aparecer novos frevos, novas canções do ritmo com importantes músicos para que enfim o ritmo ganhasse força e sobrepujasse os que queriam roubar o espaço do que já era a trilha tradicional.

Surgiram então gente como Spok, e o Maestro Forró, entre outros, que alimentaram e turbinaram o frevo com arranjos criativos, sem perder a característica original, trazendo modernidade e novos e atentos ouvidos para aquela música tão incrível.

Ao mesmo tempo, músicos como Antônio Nobrega, Alceu Valença e Germano Matias fizeram trabalhos ótimos, bem tradicionais, mas com produção esmerada, trazendo tudo o que tem de mais histórico e simbólico dos ritmos, conquistando e reconquistando diversos ouvintes e foliões.

Da mesma forma eu vejo o Forró. Vejo novos e talentosos artistas ousarem na produção de músicas e em sua execução com uma roupagem menos ortodoxa sem perder um nada daquilo que Luiz Gonzaga criou; gente como Lucy Alves, Mestrinho, Claudio Rabeca, Ó do Forró e muitas outras bandas que fazem o Forró palatável para todo e qualquer ouvinte, independente de ser ou não protegido por leis. É a musica e a qualidade musical vencendo por si só.

Elba Ramalho, Alceu Valença , Falamansa, passeiam pelo ritmo com Cds caprichadíssimos, com arranjos e músicos ótimos, alimentando na alma nordestina que todo brasileiro tem, em menor ou maior grau, aquilo que tem de mais forte culturalmente na região.

Para os mais tradicionalistas, os trios funcionam muito bem, seja ao revisitarem a obra de grandes mestres que serão eternamente atuais como Gonzaga, Dominguinhos e Jackson, seja trazendo músicas novas, mas executadas de forma a ser absorvida pelos diferentes públicos que venham a conhecer o ritmo.

A proteção da lei e a transformação em ritmo imaterial só vale se houver outras ações conjuntas que beneficiem o Forró, para dar a contrapartida a esse caráter folclórico que a postulação trará, e a única ação que me vem a cabeça e que seria realmente muito benéfico seria a de lutar junto aos políticos, para que as leis de incentivo cultural dessem 100 % de desconto a todo aquele que investisse nos ritmos com a chancela de patrimônio Imaterial Cultural. Essa seria efetivamente uma ação que ajudaria a promover o ritmo, pois facilitaria a produção de shows, gravações de música, desenvolvimento de clipes, investimentos em redes sociais e etc.

No mais, a nossa música cuida de ser, por ela mesma, um grande sucesso e será eternamente um patrimônio nacional enquanto tiver a qualidade para tanto, muito embora, me pareça que, com o legado deixado por Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro e muitos outros, ela já seja patrimônio imaterial mundial!

Em resumo, não sou contra as pessoas e nem a luta em si, apenas tenho duvidas se será benéfico ou não e acho importante colocar essa discussão na mesa.

Paulinho Rosa (Agosto/2018)

Tags: Agosto, 2018

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