Ao Sabor do Vento

Forró?
Onde tem Forró,
Por que forró?

Sim, forró, estranho? Por que? É cafona, brega, popular? Por que não forró? Melhor rock? Funk? Reggae? Jazz? Blues? Tudo isso é bom também, mas forró está ai, por aí, passeando entre todos; não é melhor nem pior, não é menos sofisticado nem mais, é sim mais eclético, é sim mais aberto, por isso se chegue, venha ver, ouvir , dançar. Mas cuidado! ele hipnotiza, cola, gruda, vicia, toma conta, talvez você não queira mais nada, depois não vá dizer que não avisei....

Na novela tem forró, tem alusão ao forró, tem uma apologia ao forró e, vejam que incrível, ao único e verdadeiro forró que existe, o criado por Gonzaga e devidamente vivenciado até hoje por seus inúmeros discípulos e apreciadores.

Na rua tem forró. É só procurar em parques, ruas, avenidas, bares, e até na rádio, mesmo que em pouca quantidade, tem forró.

Nas casas especializadas no ritmo tem forró. A maioria com cuidado, dedicação, amor e muita perseverança; existem casas especializadas dedicadas inteiramente ao ritmo, casas que amam a história, revivem e mantêm acesa a chama dos grandes personagens que fizeram a história do ritmo, mas que também propagandeiam as novas jóias e revelações da sanfona, triângulo, zabumba, baixo, cavaco, pífano, rabeca, guitarra, violão, ou seja, qualquer outro instrumento e seu tocador que lá vá tocar.

Em cidades, tem forró. Há cidades que em época de festejo junino têm forró durante 30 dias. Algumas anunciam que têm, mas na verdade não têm; em outras, o ritmo aparece de vez em quando. Finalmente, tem aquelas que assumem a verdade da festa com seu ritmo verdadeiro e é uma verdadeira apoteose. Algumas preferem festivais e eis uma cidade inteira vivendo do ritmo. Na verdade, nem sempre é uma cidade, mas uma aldeia, das que recebe gente grande e gente pequena, gente com sotaque de todo o jeito, mas que, diante da sanfona, falam a mesma língua
Em filmes, documentários, séries espalhados por vários canais, em várias cidades e estados, películas demonstram a força e atração que o ritmo exerce sobre quem quer que seja.

Porque a cultura do Brasil é uma da mais ricas que existem, e, com toda a sua diversidade, o forró é um dos importantes elementos que nos identificam como povo nordestino, como povo brasileiro, como povo que gosta de se divertir, dançar, ficar junto, colar corpos, conversar, respeitar e ter festa à vontade para usar toda essa alegria que vem sabe-se lá de onde, mesmo com tantas agruras de todos os tipos derramadas sobre nós.

Por que? Por que serve como libertação dos tímidos, ginástica pros sedentários, festa para os caseiros, casa para os festeiros, febre para os saudáveis, tranquilidade para aqueles que só procuram viver a vida com o que ela tem de bom para dar.

Por que? Porque as festas , shows, reuniões em que ele aparece fazem-se amigos, fazem-se famílias, faz-se amor literalmente, faz-se uma junção de sentimentos que perduram além do forró, que ultrapassam os limites de onde é tocado e levam pra toda a vida sentimentos de cumplicidade e comunhão.

Por que? Porque forró é delicioso de dançar, porque nos oferece uma diversidade incrível que nos impede de cansar e saturar, porque tem vários estilos, vários modos de fazer, porque é democrático, mesmo contra a vontade dos forrozeiros, porque o forró não é dos forrozeiros, mas é de todos que tiverem a vontade, a coragem, a liberdade de chegar perto e tentar conhecer.

Enfim, forró por que é bom, por que ele existe e por que ...

Não tem muito por que na verdade...é viver ele e pronto!

De todas as coisas que fiz na vida, algumas têm um significado mais emocionante e latente em termos de realização pessoal, estética e herança cultural; entre elas estão, sem dúvida alguma, dois duos que eu idealizei, formatei e, de certa forma, acabei por produzir seus respectivos primeiros shows.

O primeiro foi com Dominguinhos e Yamandu Costa!

Era um sonho antigo ver dois dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos reunidos a fim de fazer musica, a fim de se divertirem através da sua mútua admiração. É bem verdade que, de um dos lados, havia uma certa idolatria: nunca vou esquecer o comentário da empresária de Yamandu, preocupada com o nervosismo do seu genial pupilo, minutos antes de o espetáculo começar, defrontando-se ele com a tarefa de dividir o palco com sua grande referência, Dominguinhos.

Mas, uma vez postados ao palco, os dois riram, se divertiram, brincaram, contaram histórias e, sobretudo tocaram...tocaram lindamente, divinamente, tocaram como se a música falasse por eles, como se não existissem Dominguinhos e Yamandu e sim uma sanfona e um violão; tocaram como ninguém poderia tocar, tocaram complementando-se, entrelaçando-se em lindos e suaves acordes, às vezes ligeiros, mas tudo sempre bonito, tão bonito que resultou em dois discos e um DVD , memoráveis, inesquecíveis e retumbantes no sentido de nos arrebatar as emoções do modo que só a musica consegue fazer, seja solo ou pano de fundo.

O outro duo foi recente e mais uma vez uma vitória incontestável da música. Se com Dominguinhos e Yamandu, a alquimia entre o gaucho e o pernambucano funcionou maravilhosamente, desta vez a ligação entre um francês abrasileirado ao máximo e um sergipano com influência jazzísticas resultou soou na mais perfeita harmonia. Ambos se conheciam de Gil, ambos eram amigos provenientes de shows de Gil, mas ambos não haviam ainda conseguido se soltar e deixar que seus sons, seus talentos, seus corações musicais se perdessem e se encontrassem e pudessem se encaixar em um duo tão fantástico e tão atraente como aconteceu...e aconteceu.

Tudo foi resultado da minha insistência em colocar o forró também em um festival de Jazz. Essa obsessão pela ideia de o forró estar em todos os palcos, em todas as salas, em todo e qualquer espaço seja de que ritmo for, me fez sonhar com algo que mais se aproximasse do que viria a acontecer. E aconteceu mais uma vez na bela, cativante e histórica Parati, o Bourbon Festival de Paraty.

A ideia de juntar os dois, e apenas os dois, em instrumentos melódicos solistas parecia-me uma espécie de forró jazz, uma sinergia de dois instrumentos com sonoridades maravilhosas e que, colocadas por virtuosos e amantes da música nordestina como são Mestrinho e Nicolas, transformaria o resultado final em algo que qualquer ouvinte de jazz se apaixonaria, mas foi também isso que aconteceu com os ouvintes de forró, de samba, de folk, rock, blues, frevo, marcha, rumba, reggae, ou qualquer outro ritmo, pois a pitada mágica de gênios da música faz vibrar qualquer ser.

O que aconteceu foi inacreditável: diante de um cenário paradisíaco, com o palco na frente da igreja, o cais por trás, e uma promessa de garoa, os músicos soltaram o som e o verbo através de seus instrumentos; eram apenas dois músicos, apenas dois instrumentos, mas eles encheram a praça com um som que nos fazia planar, sonhar e nos sentir vivos! A música é realmente uma coisa incrível, as sensações e despertares que ela causa nos transporta a sentimentos indizíveis, pois não os captamos na consciência, apenas sentimos....

Tal qual o Duo entre Dominguinhos e Yamandu, este com Mestrinho e Nicolas já está em CD; um CD lindo que também como o duo antecessor é recheado de forró. Esse tem sido o fio condutor e propulsor de todos os projetos que faço. Ainda bem que tenho me encontrado com músicos tão fantásticos como estes quatro que também têm, pelo forró, uma grande paixão.

Gaúchos do mundo, nordestinos ecléticos, franceses arretados e gênios incontestáveis, fazem da música uma ode à obra de Gonzaga.

Em breve, quem sabe, novos duos, desde que com o forró sempre presente!

Ps: O Canto da Ema teve o prazer e a honra de receber Mestrinho e Nicolas. Acompanhe a programação, pois ele voltarão...

Paulinho Rosa (Junho/2016)

Tags: Junho, 2016

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