Sem Essa de Roots!

Nada de gueto, o bom mesmo é expandir.

Existe um medo das pessoas que se acham “donas de algo” de perderem, ainda mais diante da massificação. É bem verdade que algo sempre se perde mesmo, mas se ganha muitas outras coisas.

Quando Caetano Veloso vendeu mais de um milhão de cópias com a linda canção “Sozinho”, do Peninha, os Caetanistas apaixonados diziam que ele passara a ser comercial e vendido. Provavelmente, era o receio de perderem a condição daqueles que realmente conheciam Caetano a fundo, diante dos novos fãs.

O Forró vive em gueto faz tempo, depois do furacão Falamansa que varreu o Brasil respingando mundo afora, o Forró voltou a viver do mês junino, e das casas do sudeste, sobretudo, que alimentam quase que diariamente o ritmo, mas com um número de pessoas que chega a ser irrisório se compararmos com alguns outros ritmos.

Quem vive no meio do Forró acha que é gigante, um mundo, que temos uma importância significativa , mas a verdade é que o quinhão reservado aos discípulos de Gonzaga é bem restrito.

Podemos identificar inúmeros culpados, podemos reclamar do poder público, da mídia, podemos falar do pouco interesse de patrocinadores em colocar seus produtos e sobretudo o dinheiro da propaganda desses produtos colados à musica e aos artistas que tanto amamos, mas, se quisermos efetivamente crescer, o melhor é olharmos para nossos umbigos e ver o quanto somos mesquinhos, arcaicos e pouco profissionais diante dos outros ritmos.

Aqui falo de tudo, desde o medo já relatado de expandir e tratar todo “turista” que chega a uma casa de Forró como um alienígena coitado e sem noção, até nós, produtores, em nossas amadoras ações que em nada se comparam ao que fazem os sertanejos, o pessoal do Axé e até os nossos queridos amigos do samba, que, em parte, têm projetos mais profissionais e abrangentes nacionalmente do que nós.

Tudo isso é fácil de comprovar. Se mencionei aqui o mês junino como um mês importante, de relevância e possibilidade para o Forró se mostrar, até aí estamos perdendo força, justamente em um campo que já era nosso, mas que, diante das nossas fragilidades, agora vem sendo tomado pelos sertanejos e os forrós estilizados (eletrônico, de plástico).

A culpa não é apenas de quem contrata, o que seria muito fácil de apontar e resposabilizar, mas também das produções pífias que fazemos e ainda dessa mania de monopólio que os forrozeiros têm, deixando quase que constrangido qualquer pessoa de fora que vem meter o bico no “nosso” ritmo.

Quando falamos das casas de Forró, das festas e até das modas de festas em sítios, sobretudo no sudeste, ai a situação piora muito!

As casas de Forró, assim como as festas de sitio, são, na maioria das vezes, mal cuidadas, com equipamento de som de péssima qualidade e conservação, estruturas precárias de banheiros e uma total falta de cuidado com relação a comunicação visual e decoração. Sem contar que os forrozeiros fanáticos ainda restringem o Forró a uma sonoridade muito antiga, de gravações velhas, com arranjos estranhos aos menos conhecedores, baseados em sanfona, zabumba e triângulo apenas; modelo que nós, amantes do ritmo, adoramos, mas que pouco tem de atraente para quem está chegando agora.

Quando alguém aponta tudo isso, falam que é “roots”! Pois os “roots” têm feito um enorme desserviço ao Forró que eles propagandeiam amar.

Uma defesa simpática, mas enganosa, típica de preguiçoso, uma boa desculpa para quem não quer ter trabalho ou gastar dinheiro com estrutura, ou pior, para quem quer monopolizar o ritmo em um pequeno feudo em que o Forró não sai do lugar. Festejamos conosco mesmos e assim nos achamos, entre nós, o máximo, enquanto isso vamos perdendo força ou, ao menos, nunca crescemos.

Enquanto fazemos isso, vemos proliferar os grandes eventos dos outros ritmos, geralmente com tudo ao contrário do que apontei do Forró e, às vezes, até com exageros do contrário. De qualquer forma, é muito mais convidativo para a mídia, para patrocinadores e, sobretudo, para quem mais interessa: o público! Ter estrutura boa, ser bem recebido, ter propaganda interessante e poder ouvir bem o que o músico fala. Até porque os músicos de forró têm se mostrado poetas muitos mais interessantes do que os de vários outros ritmos. Isso é primordial!

Não quero nem nunca vou querer uma casa de Forró com carpete no chão, sofás de veludo ou excessos de frescura, mas ter uma ambiente em que qualquer pessoa possa se sentir, minimamente, bem recebido, é fundamental.

Sugiro que melhoremos nossas estruturas; que os DJs entendam que só lado B agrada a forrozeiros e que eles serão eternamente reis de um minúsculo país sem importância; que os frequentadores habituais sejam muito simpáticos e receptivos com aqueles que chegam pela primeira vez nos espaços onde o ritmo é tocado; que entendam que é melhor estar na multidão do que escondidos em guetos. Afinal para ser “roots” mesmo é preciso muito menos uma péssima produção e muito mais algo intuitivo que cresce daquela chama de quem faz, sem condições mas querendo e tentando, fazer sempre o melhor.

Aqui dou uma dica: quem quiser saber mais de algo realmente “roots” vá a Olinda na saída do bloco Boi da Macuca. Lá tem Forró “roots” de verdade. Mas uma amostra melhor ainda, no São João dessa mesma Macuca, uma fazenda ali pertinho de Garanhuns , cidade de natal de um cara chamado Dominguinhos....

Paulinho Rosa (Abril/2018)

Tags: Abril, 2018

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