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E d i t o r i a l


Mas Respeita o Povão

       Tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro, ainda era meio matuto, mesmo depois das andanças por diversos Estados brasileiros acompanhando o Exército. Lá, em plena zona do meretrício carioca, Gonzaga chegou e se instalou. Não exatamente “lá”, mas foi naquele pedaço que ele arrumou um espaço para puxar seu fole.
       E na calçada, nos bares e dancings, foi teimando e cavando seu lugar entre os diversos músicos da noite carioca.
       Quando podia, ia aos shows de calouros promovidos pelas rádios para tentar ser visto e, quem sabe, contratado.
       O grande erro de Gonzaga era tentar com polcas, boleros e mazurcas, pois, quando depois de atender aos sucessivos pedidos de alguns estudantes do Ceará para que tocasse algumas coisas do “Norte”, finalmente as coisas começaram a acontecer.
       Dali para o sucesso não demorou muito e, em pouco tempo, aquele matuto pernambucano, da Serra do Araripe, conseguiu costurar culturalmente o Nordeste brasileiro ao “Sul maravilha” e tornar um pouco da música nordestina também a música de todo o Brasil.
       Não era fácil, pois, naquela época, o povo daqui já tinha um pouco de preconceito com os irmãos de lá, e, mesmo com a música nordestina passando a fazer sucesso, este não se alastrou para os migrantes nordestinos.
       O tempo passou, Gonzaga virou o “Rei do Baião”. Ostentou sua coroa atuando majestosamente, pois trabalhava nas mais importantes rádios, aparecia nas televisões, era convidado para as solenidades, tocava para presidentes, reis e todo tipo de gente importante, sem nunca se esqueceu do “seu povo”, afinal era oriundo de uma pequena cidade bem pobre: Exu.
       Havia passado por muita coisa e vivido com as mesmas dificuldades de diversos conterrâneos. Sem se esquecer de que sua música era fruto dessa experiência toda: fora lá que havia aprendido, e algumas das letras de suas músicas falavam das dificuldades e do sofrimento do povo do Nordeste.
       Após o apogeu, veio a fase menos iluminada. O povo brasileiro trocou o regionalismo do Baião, pela sofisticação da Bossa Nova, da influência do Jazz no samba, e também pelos cabelos longos, guitarras elétricas e rebolados da Jovem Guarda, e acabou repudiando a sanfona.
       Foram vários anos de ostracismo, tempo em que “Sua Majestade”, geralmente acompanhado de seu fiel discípulo Dominguinhos, passou a percorrer todo o Brasil que a televisão e o radio ignoravam. De carro, pelas estradas desse interior do nosso país continental, ele parava nas cidades pequenas, médias e até nas grandes, onde tocava em campos de futebol, teatros, cinemas e, às vezes até em circo, isso quando não comprava antes a lona para ajudar.
       Mas música que tem alicerce bem fincado é que nem moda: vai, vem, volta, e dá meia volta, volta de novo, e vai.
       E, nesse meio tempo, veio de novo.
       Ajudada pelos tropicalistas e, provavelmente, por uma motivação inerente ao nosso povo, que tem o ritmo como um dos mais representativos do país. Seja pelo motivo que for, Gonzaga e todos os seus discípulos reapareceram no cenário nacional.
       Em um primeiro momento, nas periferias das grandes cidades. Estas, lotadas de migrantes nordestinos que, geralmente em condições sócio-econômicas mais precárias, tinham o ritmo como a lembrança viva de suas terras, como o divertimento natural de suas vidas. Esses espaços, esses forrós, tinham pouquíssimos frequentadores naturais das cidades de onde se localizaca, ou seja, poucos cariocas no Rio e poucos paulistanos em São Paulo, e, todos, geralmente de classes sociais menos abastadas.
       Por volta de 1995, um movimento eclodiu em todo o Sudeste. Em São Paulo, mais precisamente no bairro de Pinheiros, surgiram algumas casas trabalhando com o ritmo. Curiosamente, não eram mais apenas frequentados por migrantes nordestinos, mas, principalmente, pela classe média e media-alta paulistana, sobretudo por estudantes das principais faculdades da cidade.
       Esse acontecimento foi uma verdadeira “febre”; em pouco tempo, mais de mil pessoas iam a algumas dessas casas semanalmente, até que, mais ou menos na virada do século, o forró atingiu seu ápice, contando com a abertura de diversas casas, com o surgimento de inúmeras bandas e trios de não-nordestinos e muitos, muitos, novos amantes do ritmo. Tudo isso teve o substancioso empurrão do Falamansa, com mais de um milhão e meio de CDs vendidos em todo o país, e do mega sucesso gravado por Gilberto Gil no filme “Eu, Tu, Eles”: “Esperando na Janela”.
       O ritmo de Gonzaga experimentou um momento quase desconhecido, e as casas passaram a ter todo o tipo de cliente.
       Hoje, o Canto da Ema tem orgulho de fazer parte dessa história, mais ainda por acreditar, sustentar e divulgar os preceitos do “Velho Lua”, aceitando em seu salão todo tipo de gente, independentemente de qualquer coisa, desde que, claro, a pessoa venha pra se divertir, e não para fazer baderna, mexer com drogas, ou ser descortês com os outros, os únicos motivos que nos levam a impedir a entrada ou facilitar a saída das pessoas que aqui estão ou vêm.
       No mais, esperamos por qualquer um, indistintamente, sem colocar obstáculos, pois, como sempre dizia Gonzaga, “mas respeita o povão!”.

Paulinho Rosa
Maio/2009

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